“If a plane were to fall from the sky
How big a hole would it make
In the surface of the earth”
Editors – The racing rats

An end has a startPara não dizer que em .::musicness::. não se fazem resenhas, seguem duas, de discos nos quais estou viciado. De fato, o estilo dos trabalhos é tão próximo que parecem ser dois lados de um mesmo LP.

O primeiro é An End Has A Start, do Editors. Quando a banda apareceu, em 2005, com o incrível Back Room, teve gente que caiu de pau nesta moçada de Birmingham, Inglaterra, dizendo que se tratava de uma cópia malfadada do Interpol (de quem falo logo abaixo). Para mim, apesar da sonoridade ser realmente bem parecida, é tão boa quanto. Aliás, ambos bebem da mesma fonte, o post-punk do Joy Division. Por isso, gosto de pensar: ser a cópia da cópia tem menos mérito do que ser a cópia apenas?

Provavelmente para evitar polêmicas como esta, e sabendo que o Interpol também teria trabalho novo na praça este ano, os caras do Editors se adiantaram e lançaram seu disco antes da banda de NY.

E ouvindo o disco é preciso reconhecer que se trata de uma banda valente, que larga mão dos sintetizadores alegres e festivos e emprega um rock sombrio, com letras sobre morte, dúvidas e incertezas existenciais – características condizentes com a cidade de onde saíram, no norte gelado e industrial da Inglaterra, e temas que caem bem para o momento que nós, brasileiros, também passamos (prestou atenção na epígrafe acima?).

A sonoridade do álbum traz um som aberto, cheio, dark, mas que mantém uma identidade própria, não se utilizando da aposta de que a grandiosidade seja um fim em si mesmo, como muita gente anda fazendo ultimamente (Muse e The Killers, por exemplo). An End Has A Start é quase todo conduzido por um piano – o que o poderia deixar choroso, como Coldplay – mas ao mesmo tempo aposta nas guitarras para trazer substância para as faixas, algo que o próprio Ian Curtis aprovaria (dê uma ouvida em The Weight Of The World e veja se não se trata de uma canção que o próprio falecido vocalista do Joy Division poderia ter composto). Tem ainda o vocal de Tom Smith. Teatral, empresta às músicas a dramaticidade que as letras pedem e ainda assim consegue se sobressair às camadas musicais do disco.

Editors – Smokers Outside The Hospital Doors

“There’s no I in threesome
And I am all for it
Babe, it’s time we give something new a try”
Interpol – No I In Threesome

Our Love to AdmireOur Love to Admire: taí um disco que começou com a música errada. Os nova-iorquinos do Interpol em muitas entrevistas disseram que se orgulhavam de iniciar seus dois discos anteriores – Turn On The Bright Lights (2002) e Antics (2004) – com músicas poderosas. Seguindo este pensamento, seu novo trabalho deveria então iniciar com a segunda faixa, No I In Threesome, que conta como é difícil ser você mesmo num triângulo amoroso, e não com a enrolada Pioneer to the Falls, que demora a engrenar.

Porém, o deslize inicial não tira o mérito do trabalho todo, mesmo sendo de longe este o pior dos três discos da banda. Contudo é preciso convir que a tarefa do Interpol era realmente ingrata: depois de um hiato de três anos (coisa rara para os dias de hoje) e com dois álbuns muito bem cotados no currículo, era preciso que o grupo saísse com alguma coisa nova para mostrar aos fãs e à crítica.

Além disso, a mudança para uma grande gravadora (saíram da Matador para adentrar o panteão das grandes vendas com a Capitol) e lidar com a pressão que isso gera, fez com que o Interpol precisasse superar sua apatia exagerada, a postura blasé e o cuidado excessivo com os terninhos bem cortados para procurar o caminho desleixado, porém marqueteiro, trilhado anteriormente pelos Strokes, conterrâneos que surgiram praticamente simultaneamente, mas com resultados mais expressivos em vendas.

Para tanto, a solução foi chamar o produtor do Muse, Rich Costey, para transformar as faixas dark-frias-angustiadas do pós-punk em algo, hã, maior e mais “pra cima”. Porém, felizmente, da mesma forma que o Editors, a banda não utiliza isso como um fim em si mesmo em Our Love to Admire.

As letras criam a substância que o disco precisa e, assim como nos trabalhos anteriores, continuam levando a lugares e pensamentos profundos, com inquietações urbanas modernas. Por entre alguns devaneios de desejos não correspondidos, sobra tempo até para o Interpol fazer uma análise da atual fase da cena de Nova Iorque, que viu muitas de suas bandas da fase de ouro do “novo rock” (como o Yeah Yeah Yeahs) e outras figurinhas do meio migrarem para Los Angeles recentemente. Em Heinrich Maneuver, o volcalista Paul Banks pergunta “How are things on the west coast? / I hear you’re moving real fine”.

E se esse esforço todo não se transformou em um álbum coeso – argumento expresso pelas desnecessárias Wrecking Ball e Lighthouse, que fazem jus à capa e fecham o disco de maneira melancólica – ao menos Our Love to Admire tem ótimos momentos. Minha preferida: Who Do You Think?.

Interpol – All Fired Up

Postado por Diogo Dreyer

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