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Preciso confessar. Minha namorada que me perdoe, mas sou apaixonado pelo Nada Surf. Bom, sei que todo mundo tem sua banda de estimação. Eu, na verdade, tenho algumas. Mas o trio nova-iorquino formado por Matthew Caws (vocal e guitarra), Daniel Lorca (baixo), e pelo baterista Ira Elliot, que chega agora ao seu quinto disco, Lucky, tem um espaço reservado nas minhas preferências desde 1998 (e lá se vão dez anos), quando lançou o disco The Proximity Effect, trabalho que foi a resposta da banda ao primeiro álbum, High/Low, de 1996, que trouxe ao mundo o hit Popular e por algum tempo os jogou nas graças do mainstream.

Para não ficar taxada como um caso de one-hit wonder devido ao sucesso da música, o Nada Surf brigou com a gravadora, abriu selo próprio, ultrapassou as expectativas dos críticos e fincou bandeira definitiva no cenário alternativo. Pela relevância e militância na cena indie de NY, muitos apontam a banda como uma das precursoras da geração que trouxe ao mundo os The Strokes e “os salvadores do rock”, no início da década de 2000.

Mesmo assim, conseguiram não se tornar obsoletos quando a nova turma começou a sacudir o mundo. Pelo contrário. Em 2002, o Nada Surf lançou Let Go, talvez um dos discos mais belos que já ouvi, recheado de lindas canções, como Blizzard of 77, Happy Kid e Hi Speed Soul. Com o disco e seu power pop declaradamente inspirado em Teenage Fanclub, Guided By Voices, Flaming Lips e Weezer, o Nada Surf atingiu a unanimidade da aclamação dos críticos, arrebanhando fãs em todo o lugar. Tanto que os integrantes passaram os três anos seguintes em turnê pelo mundo divulgando o álbum, que por aqui só ganhou lançamento oficial em 2004.

Foi nesse mesmo ano que tocaram em Curitiba, para um público que cantava décor todas as músicas. Depois do show, no Era Só o que Faltava, troquei uma idéia com os caras da banda, que ainda ficavam surpresos em aparecer em lugares exóticos, como o sul do Brasil, e ver que tinham um monte de fãs nestes lugares inusitados. “Minha mãe viu nosso show em São Paulo e perguntou como é que as pessoas por lá sabiam cantar nossas músicas. Falei para ela que devia ter alguma coisa haver com a internet, mas que mesmo assim, era assustador”, disse Daniel Lorca entre uma Skol e outra. Uns dois anos depois encontrei um cartaz do show num bazar, que devidamente emoldurado, ocupa lugar de destaque na minha sala, próximo a uma foto de Paul, John, George e Ringo.

Em 2005, o Nada Surf lançou mais um disco, The Weight Is a Gift, também muito bem feitinho e tal, mas que não conseguiu reproduzir toda a beleza do antecessor. Mas aí eles já eram indie rock heroes de meio mundo e nem precisavam provar mais nada.

De qualquer forma, a banda aproveitou toda a aura que detém no meio alternativo para fazer Lucky e lançá-lo com o barulho que todo bom álbum indie merece. O novo disco tem contribuições de Ben Gibbard (do Death Cab for Cutie) e Ed Harcourt (do Snug), além dos membros do Calexico e do Harvey Danger. Com acabamento de primeira, que valoriza a suavidade e sonoridade da banda, Lucky abusa dos violões, soa leve e luminoso, com pitadas de lo-fi aqui e ali para dar um contra ponto ao pop generoso das faixas, como em Ice on the Wing. As letras têm um quê de melancolia, mas são daquela fofura característica da banda capaz de degelar o coração do Gargamel e fazer ele desistir de saborear um smurf desavisado que tenha caído em suas garras. Para degelo coronário, vide I Like What You Say e See these Bones.

Mas minha preferida é a faixa que fecha o disco, The Film did not Go ‘Round, que ao som de um quase folk levado numa tomada bem lenta, prega “Everyone’s gotta leave their love sometime / If not now, then at the end of your life-time”. Ouve aí.

Nada Surf – The Film Did Not Go ‘Round[MP3]

Postado por Diogo Dreyer

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