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Foto: Cesar Brustolin/SMCS

Notícia do site da Prefeitura de Curitiba informa que a instituição, por meio da Secretaria Antidrogas, fará “ações de prevenção às drogas em eventos de música eletrônica, as chamadas raves”. Segundo a matéria, as ações acontecerão por meio de parcerias com empresários e produtores das festas, que se reuniram na segunda-feira (31) com o secretário Antidrogas e ex-delegado da Polícia Federal, Fernando Francischini (na foto com empresários do setor).

Além da presença obrigatória de cães farejadores na entrada das festas, também serão instaladas câmeras nas festas e nas casas noturnas. “Após as festas, DVD’s com as imagens nos serão entregues. Elas poderão ser usadas pela polícia, seja Militar, Civil e Federal, numa ação de repressão contra o tráfico de drogas”, contou o secretário.

Entendo o esforço da Secretaria, que foi criada para esse fim, mas me preocupa essa coisa de câmeras nas festas e, principalmente, dentro dos clubes. Não levo e não vendo drogas em lugar algum e, mesmo assim, sentiria meu direito à privacidade extremamente ferido sendo gravado em uma festa ou num clube e, posteriormente, sendo “analisado” por órgãos policiais juntamente com o restante dos participantes.

Serão feitas triagens das imagens? Por quem? Todas as gravações serão cedidas à polícia? Imagine como serão feitas as análises de horas e mais horas de gravações de um mundo de gente entre luzes e estrobos colocando Halls e chicletes na boca e passando por suspeito. Fora a diversão que será na delegacia quando passarem as “cenas mais calientes” dos freqüentadores em pegações mais animadas. Enfim, um Big Brother em nome da lei. Penso que se existe sigilo telefônico que precisa de autorização judicial para ser quebrado, o mesmo deve ser aplicado a imagens. Ou são todos suspeitos até prova em contrário?

Em entrevista ao jornal Gazeta do Povo, Gustavo Gossling, um dos donos da Vibe, uma das mais afamadas casas do gênero em Curitiba, diz que, desde sua inauguração, o clube conta com câmeras de monitoramento. “Inclusive já foram cedidas à Polícia Federal para ajudar em investigações”, afirma. Ahã. A orientação, dizem os empresários, é retirar dos locias as pessoas que vendem e consomem as drogas. Sei.

A reportagem da Gazeta, aliás, é um emaranhado de clichês sobre o assunto – coisa que as pessoas que acompanham festas e noticiário já estão acostumadas – e o repórter em nenhum momento questiona se a iniciativa vai contra o direito à privacidade dos freqüentadores desses locais.

Quanto aos cães farejadores, cansei de ir a Skol Beats onde havia policiais fortemente armados e com cachorros nas entradas e dentro do espaço onde era realizado o festival, e qualquer pessoa que já tenha participado de algum evento desses sabe da ineficácia desses esforços para coibir o uso de drogas ilegais.

Lendo as declarações dos empresários ao jornal, todos figurinhas carimbadas da noite na região sul, e conhecendo o que acontece dentro dos clubes e festas, fico com a sensação que essas ações cheiram a promoção. Tanto para os responsáveis pelas baladas, que ganham uns pontos com o novo secretário Antidrogas posando de santinhos, quanto para a Secretaria, que pega carona em grandes apreensões de drogas sintéticas feitas pela Polícia Federal no Paraná e aparece ao público como fazendo sua parte.

O órgão também anunciou uma terceira atitude definida na reunião: a divulgação de orientações sobre o efeito das drogas sintéticas no material de divulgação das festas, o que caracteriza o esforço de caráter “preventivo e educativo” da instituição. Claro que a adoção de políticas de minimização de impacto do uso de drogas sintéticas e o impacto do álcool e do tabaco e medidas para restrições do consumo dessas substâncias nem passou perto da pauta de discussão. A preocupação parece ser mesmo vender cerveja. À Gazeta, o empresário Carlos Civilate Júnior, o Jejê, da Orbital, XXXPERIENCE e Tribaltech, disse: “O cara que faz uso destas drogas não bebe nada. Fica na sua ‘viagem'”, justificando perda de receita com bebidas nas festas que organiza.

Não se discutir políticas que minimizem o impacto, aliás, pode ser visto como um mau negócio dos donos dos estabelecimentos e dos produtores de festas. Tenho cá comigo que as ações anunciadas não deverão ter um impacto grande a longo prazo. Devem causar um tumulto aqui, outro lá durante uns meses, e depois cairão em desuso, ainda mais por não se tratar de lei, e sim, de uma “parceria”. Mas caso tenham um efeito mais duradouro, o tamanho do constrangimento aos freqüentadores será diretamente proporcional à diminuição de público. Ou alguém aí gosta de passar por “traficante perigoso” aonde vai para se divertir?

Postado por Diogo Dreyer

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