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Em 1948 o Japão era um país bem diferente do que é hoje. Os efeitos devastadores da Segunda Guerra Mundial eram sentidos em todo o país com cidades destruídas, uma economia em colapso e uma sociedade arrasada. Foi neste cenário que surgiu a “Lei das Empresas que Afetam a Moral Pública”, popularmente chamada de “Fueiho”.

A ideia por trás da lei era das melhores: regular as atividades ligadas ao entretenimento de um modo geral, especialmente para coibir o jogo ilegal e a prostituição. A “Fueiho” estabelecia uma séria de licenças e procedimentos burocráticos para a obtenção destas permissões, de modo que para se dançar em um local fechado era necessário que ele tivesse uma licença específica – que o obrigava a fechar as portas à 1hr da madrugada.  Não só isso: para que as pessoas pudessem dançar, o local deveria ter uma área mínima de cerca de 60 metros quadrados completamente livre e desobstruída para ser utilizada em caso de emergências.

O tempo passou, o Japão deu a volta por cima e protagonizou uma das histórias mais fascinantes de superação que uma nação já deu. É um país extremamente rico e desenvolvido, mas sua sociedade mantém características seculares de preservação de suas tradições. Muita coisa mudou radicalmente no país, mas a “Fueiho” não foi uma delas.

Apesar da lei estar vigente há mais de 60 anos e de ter passado por pequenas mudanças, por muito tempo os japoneses fizeram algo que nós brasileiros estamos bem acostumados e simplesmente ignoraram as determinações legais, fazendo com que a lei “não pegasse”. A música eletrônica foi uma a se beneficiar desta atitude e clubes, bares e festas não precisavam se adaptar às rígidas (e sem sentido nos dias atuais) regras para permitir que as pessoas pudessem dançar.  Mais que isso, os japoneses se revelaram bons de pista: além de uma cena rica com ótimos DJs e produtores, muita gente coloca até hoje clubes como Womb entre os melhores do mundo. Tóquio se orgulha de ser uma cidade com uma noite agitada e das mais animadas do mundo.

E assim as coisas iam correndo bem até que em 2010 um estudante morreu em uma briga de rua que teve início dentro de um clube em Osaka. A partir deste momento as autoridades japonesas como que “ressuscitaram” o então esquecido absurdo legal ,  e o que se vê desde então é uma verdadeira aberração: clubes e boates nas quais é proibido…dançar! A foto que você vê abaixo não é nenhuma montagem: diversos clubes japoneses podem até parecer iguais aos de qualquer outro lugar do mundo com seus bares, cabines de DJs com músicos se apresentando e pistas, não fosse pelo fato de pedirem expressamente aos seus frequentadores que não dancem.

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Claro que respeitar a insólita regra é um desafio, e não são poucos os relatos de pessoas que são interrompidas de seus passos por seguranças ou até mesmo de fechamentos de clubes por desrespeitarem a lei. São inúmeros os relatos de histórias que beiram ao cenário das pegadinhas de TV, mas o problema é que elas são bem reais e estão causando prejuízos para os donos dos estabelecimentos, para quem simplesmente quiser pegar uma boa festa e é claro, para todo o desenvolvimento de um cenário cultural rico em solo japonês.  A principal pergunta que se faz é: porque as autoridades locais decidiram aplicar uma parte da lei que se encontrava em desuso há tantos anos exatamente neste momento? Diversas teorias aparecem, dando conta de que a lei não passa de uma desculpa para cobrir investigações maiores do crime organizado ou até mesmo de que o Japão é alvo de uma “onda de moralidade” imposta pelos políticos na última década.

Não demorou para que as pessoas se organizassem contra a “Fueiho” e músicos (como Ryuichi Sakamoto), empresários e bastante gente vêm se mobilizando pra que os trechos da lei que tratam das limitações aos espaços de dança sejam derrubados ou revistos. Abaixo assinados e organizações como a “Dance Lawyers” são alguns exemplos disto, além de posicionamentos individuais e de diversos veículos da mídia (alguns deles recorrendo ao caso de Berlim para mostrar como a “club culture” pode ser um grande atrativo para uma cidade), de modo que até mesmo a edição local da revista Time Out já se manifestou contra o absurdo. Por hora, nenhuma mudança surtiu efeito concreto, mas com o debate instalado o assunto já é visto como prioritário nas discussões em torno da cultura no país. O receio maior é de que como as ações mais duras de fiscalização  já duram alguns anos, as novas gerações não estão tendo o mesmo contato com a cultura da música eletrônica que as gerações anteriores tinham há 5 ou 10 anos atrás. Alguns artistas e produtores já planejam se adequar e investir em eventos diurnos na tentativa de amenizar os prejuízos (financeiros e culturais), e a discussão já vai muito além dos clubes de música eletrônica, englobando artistas de rock e hip-hop. Enquanto a lei não muda, é proibido dançar no Japão!

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