Arquivos para o mês de: setembro, 2013

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Não bastassem os hits, os sets e o hype ao redor, os irmãos do Disclosure disponibilizaram um vídeo de “Latch” em uma apresentação em Nova York em 360 graus. Através do próprio mouse, é possível ter acesso às diferentes visões do palco!

 

Você compra carros com base em rankings? Seja dos mais vendidos, seja dos melhores? Deixa de frequentar restaurantes porque eles estão fora dos guias especializados ou não estão nas listas dos melhores? Larga o seu time e começa a torcer pra outro pela colocação deles no ranking da CBF ou da Placar?  Provavelmente a resposta pra todas estas perguntas é não – o que não desqualifica a existência destas classificações, diga-se.

Criar listas de coisas e classificá-las segundo critérios mais ou menos lógicos é quase que um hábito do ser humano. Tem a ver com estabelecer parâmetros e agrupar coisas por suas qualidades e provavelmente essa é uma conduta instintiva que nos fez evoluir. Em geral isso pode ser também um ótimo passatempo, e pra algumas pessoas pode se converter numa obsessão. No ótimo livro “Alta Fidelidade” o inglês Nick Hornby explora bem essa mania: das separações mais dolorosas à músicas e álbuns o personagem principal Rob Fleming vive toda uma vida em torno de suas próprias listas, o que somado à ótima narrativa de Hornby faz da história um clássico da literatura recente.

A história de “Alta Fidelidade” me vem à cabeça todos os anos quando vejo as premiações de DJs e os intermináveis embates que se sucedem às suas divulgações: os erros, acertos, as incoerências, absurdos, esquecimentos, méritos, tudo acaba em discussão. Era assim lá atrás nos tempos dos fóruns e com o passar do tempo estes deram lugar às redes sociais, com a polêmica só mudando de endereço: Orkut, Facebook e Twitter frequentemente são palco de debates acalorados  – aos quais eu mesmo participei diversas vezes – que seguem rigorosamente iguais nos argumentos com pequenas variantes nos nomes dos envolvidos. Como estamos em setembro, a DJ Mag encerrou recentemente sua votação do “Top DJ” de 2013, e logo deve divulgar mais uma lista, a décima sétima da história, o que fará com que se repita o filme.

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Ou não. Nos anos 90, quando a música eletrônica era um pequeno nicho e a figura do DJ estava mais perto da marginalidade do que do glamour, fazia sentido que uma publicação de referência inglesa prestasse o suposto bom serviço de situar uma cena artística e um mercado então limitados, mostrando quais DJs eram os mais queridos e apreciados pelo público. Afinal de contas, haviam poucos DJs, poucos clubes, poucos festivais e muito pouca gente (principalmente fora da Inglaterra) que se importasse muito com isso. À época já havia quem torcesse o nariz pra iniciativa justificando que artistas não são carros, vinhos ou produtos pra que possam ser classificados assim.

Como já disse antes, o tempo passou e não é preciso lembrar aqui o tamanho que a então pequena “cena” adquiriu, mas ela cresceu tanto que há 20 anos atrás deviam existir pouco mais de uma centena de DJs profissionais no mundo e hoje existem milhares deles. Num cenário que lutava muito pra ser visto com seriedade e contra preconceitos, explicar pro grande público que haviam artistas  profissionais reconhecidos pelo seu trabalho tinha a sua utilidade

Hoje, entretanto, a permanência das listas dos melhores DJs se converteu em uma aberração, mais propensa a escancarar as distorções de um mercado do que servir como guia de qualquer coisa. Soa como um resquício de uma época em que éramos pequenos, e o fato de não haver nada parecido na música pop, no rock, no hip-hop ou em qualquer gênero é indicador suficiente disso. Os Top 100 da DJ Mag ou os Top 50 do Resident Advisor polarizam e dividem um cenário rico demais pra ser taxado de ou comercial ou conceitual, principalmente quando há tanto talento que não se enquadra em nenhum dos extremos ou que se encaixa perfeitamente nos dois. Pra quem acha que ao menos eles refletem muito bem quais são os artistas mais populares nestes dois “macro gêneros”, a questão que surge é: o que exatamente é a popularidade hoje?

Um artigo recente do New York Times sugere que o conceito de “pop” atual difere muito do de ontem. Méritos da Internet, que fornece novos e muitas vezes confusos parâmetros pra se medir a influência de um artista. Há 70 anos atrás a Billboard simplesmente coletava os dados dos discos mais vendidos e pronto. Hoje o cálculo da publicação leva em conta  downloads, dados de streaming e até mesmo visualizações no YouTube, o que leva à lógica conclusão de que o mais popular não é necessariamente o que mais vende, já que vender não é mais sinônimo de tocar. Hoje temos um pop mais efêmero do que nunca: Gangnam Style e Harlem Shake são ótimos exemplos de hits massivos que tão rápido como vieram, foram.

Logo, na música eletrônica, o DJ mais popular é o mais votado em um site ou o que tem as suas faixas e sets mais baixados – legal ou ilegalmente? Ou o que tem mais datas por ano, por exemplo? Em um país como o Brasil, com tantos artistas valorosos mas restritos territorialmente, os “Tops” estrangeiros estão muito distantes da nossa realidade e refletem quase nada do que acontece nas noites brasileiras.

O fato é que em toda a “indústria cultural” as novas plataformas de reprodução (livros, filmes, vídeos, etc) estão levando a enormes mudanças nos parâmetros de qualificação de popularidade. E outra verdade é que vivemos um tempo em que a chamada “cultura de massa” parece cada vez mais fragmentada, com nichos e preferências de antigas minorias com espaços cada vez maiores, deixando mais difícil identificar as homogeneidades culturais que proporcionam os fenômenos pops. Ou seja: votações restritas a DOIS sites especializados estão muito distantes do que pode ser considerada uma ferramenta válida pra se mensurar a popularidade de artistas. É curioso (e não deixa de ser irônico) ver como uma música que sempre esteve tão ligada à ideia futurística ainda esteja tão presa ao passado na sua própria auto crítica.

Talvez o caminho a ser trilhado esteja nas bons e velhos prêmios. É nas premiações qualitativas que os bons parâmetros podem aparecer com mais facilidade, e é mais comum e menos polêmico que se estipulem classificações de grandes álbuns, de eventos memoráveis e de artistas que atravessam momentos singulares. É saudável que todos estes trabalhos sejam reconhecidos – de preferência mesclando a opinião do público com a de especialistas, pra que se tenha uma avaliação combinando a popularidade com a opinião de gente que trabalha com isso, e só por isso tem mais condições de opinar já que vê, escuta e observa mais que a maioria. Talvez com tanta proximidade com a tecnologia, estabelecer métricas eficazes de popularidade amparadas em dados reais não seja um desafio tão grande assim.

Listas e classificações podem ser ótimas fontes de informação para um público que desconhece determinado assunto e uma justa homenagem a trabalhos, mas a sua credibilidade deve residir em algo além da simples popularidade – principalmente com tantas perguntas em torno do que esta palavra pode significar hoje.

Autoridades norte-americanas afirmam que três mortes em eventos musicais realizados no país durante a semana passada guardam relação com consumo excessivo de drogas, mais particularmente de Ecstasy. Não há confirmação de exames toxicológicos, mas a sequência chocou o país.

Olivia Rotondo, de 20 anos, e Jeffrey Russ, de 23, eram estudantes universitários e estavam em Nova Iorque para o festival Electric Zoo, um dos maiores realizados na região. Segundo informações do New York Post, ambos teriam ingerido grandes quantidades de droga, e Olivia teria dito a uma amiga que tinha tomado seis comprimidos de Ecstasy. Eles chegaram a receber atendimento médico no local, mas morreram em hospitais na madrugada de 31 de agosto, o que levou a Prefeitura de Nova Iorque a recomendar o cancelamento do terceiro dia do festival, o que foi acatado pela organização. Na semana passada uma outra mulher, não identificada, morreu durante uma apresentação do DJ Zedd, em Boston, também por suspeita de overdose, além de outras duas terem sido internadas pelo mesmo motivo.

As mortes causaram consternação nas mídias sociais, com artistas e organizadores dos eventos postando declarações de solidariedade aos familiares. Nesta segunda, a notícia foi amplamente repercutida por diversos jornais, blogs, revistas e sites.

Diferente de outros tempos ou países, em que a generalização e a demonização estúpida da música seriam um alvo fácil da imprensa, desta vez o que se percebe é um debate muito mais construtivo a partir do horror causado pela situação. Talvez porque já tenha ficado evidente que problemas desse tipo não são exclusivos de festas de música eletrônica, e o Huffington Post, através de uma carta de seu Editor de Entretenimento Kia Makarechi, adotou um posicionamento valioso no caso. Deixando de lado a hipocrisia ou o sensacionalismo fácil, Kia sugere uma discussão ampla sobre o caso e, principalmente, atitudes por parte de artistas que vão além de apenas “lamentar as mortes no Twitter”. Ele também chama os grande eventos à responsabilidade de informar seu público sobre os riscos das drogas e de disponibilizar equipes médicas especialmente treinadas para agir, sugerindo ainda que organizações como a Dance Safe tenham um papel mais ativo nos eventos.

Image DanceSafe Logo

Mais que isso: o jornalista chama pra si mesmo a responsabilidade afirmando que se estereotipar os eventos de música eletrônica não é o melhor caminho para contribuir com a solução dos problemas, essa rotulação também não pode ser utilizada para negar o fato de que sim, há o consumo de drogas que está pondo em risco a vida de pessoas. A questão que surge com muita coerência no discurso de Kia é exatamente esta: a negação da existência do problema também é um fator para que ele persista, assim como é falta de políticas coerentes. Nas palavras dele mesmo “Anyone in a position to distribute information that can save lives who shirks that responsibility is a coward. There’s a difference between “don’t do drugs” and “there have been a number of high-profile deaths within our community — please take a minute to educate yourselves.”

Traduzindo: “Qualquer pessoa em uma posição de transmitir informações que podem salvar vidas que foge dessa responsabilidade é um covarde. Há uma diferença entre dizer “não use drogas” e “Há casos de mortes ligadas a isto dentro da nossa comunidade – por favor, tome um tempo para se informar e se educar sobre isso”.

O sensacionalismo que estereotipa e taxa todo e qualquer evento de música eletrônica de um “ambiente drogado” é batido (apesar de ainda vender muito), mas se ele é nocivo pra solução do problema, a hipocrisia que nega a existência de consumo também é. Ambos miram no ponto errado: um pela ânsia de ganhar audiência fácil na tragédia sem enfrentar o problema de fato, e outro por se esquivar de uma responsabilidade que de fato não é apenas sua, mas também é sua. O consumo de entorpecentes é um comportamento humano milenar e que vai acontecer, não importa quão pesada seja a proibição. Se ele foge do controle a ponto de seus usuários experimentarem conseqüências graves, e há um ponto comum no ambiente em que isto está acontecendo, nasce uma responsabilidade maior de todos os envolvidos. É o Estado, mas também são as pessoas envolvidas nisso que devem tomar atitudes positivas sem que isso seja distorcido pelos oportunistas como “apologia”.  Ou seja: a equação envolve o Estado, a sociedade e os mais diretamente envolvidos nos eventos.

A Polícia não está fazendo apologia à violência quando pede que torcedores evitem trajar camisas de torcidas organizadas em dias de jogo: ela está adotando uma postura preventiva a fim de evitar que o comportamento de poucos violentos prejudique muitos por motivos estúpidos. Igualmente, orientar condutas a todos os frequentadores de uma festa sobre como agir em uma situação de perigo ligada ao consumo de drogas não é apologia alguma, mas tão somente  uma prevenção de que o comportamento de poucos se converta em um grande problema.

Talvez Makarechi esteja exagerando, mas eu particularmente me preocupo quando algo que gostamos tanto como a música eletrônica cresce numa proporção tão grande a ponto de pessoas perderem suas vidas em momentos que eram para ser de diversão, e estas mortes podem estar acontecendo por simples desconhecimento.

E é exatamente por isso quero fazer a minha parte, a começar aqui pelo musicness: o ótimo filme “Quebrando o tabu” inaugura amanhã em seu canal no Youtube uma série de vídeos destinados a ampliar o debate sobre a questão das drogas. Se você ainda não viu o filme ele está disponível integralmente no canal do Quebrando o Tabu! Mais que isso: recomendo que você acesse a página do Dance Safe e dê uma lida. Ela é intuitiva e simples, e o Google Tradutor ajuda quem não tem facilidade com o inglês. As informações podem ser úteis caso você seja um consumidor, caso você tenha amigos que sejam ou simplesmente se você estiver num clube/show/festa e ver uma pessoa em situação de risco.

Muitos pensam que a sociedade brasileira não está pronta para o debate maduro que sempre sonhamos sobre a questão das políticas de redução de danos relacionada ao consumo de drogas. Mas acredito que tomarmos a iniciativa de fazer este debate amadurecer não é apenas uma opção, mas sim uma responsabilidade, e quebrar alguns tabus é o primeiro passo pra que isso aconteça.