Autoridades norte-americanas afirmam que três mortes em eventos musicais realizados no país durante a semana passada guardam relação com consumo excessivo de drogas, mais particularmente de Ecstasy. Não há confirmação de exames toxicológicos, mas a sequência chocou o país.

Olivia Rotondo, de 20 anos, e Jeffrey Russ, de 23, eram estudantes universitários e estavam em Nova Iorque para o festival Electric Zoo, um dos maiores realizados na região. Segundo informações do New York Post, ambos teriam ingerido grandes quantidades de droga, e Olivia teria dito a uma amiga que tinha tomado seis comprimidos de Ecstasy. Eles chegaram a receber atendimento médico no local, mas morreram em hospitais na madrugada de 31 de agosto, o que levou a Prefeitura de Nova Iorque a recomendar o cancelamento do terceiro dia do festival, o que foi acatado pela organização. Na semana passada uma outra mulher, não identificada, morreu durante uma apresentação do DJ Zedd, em Boston, também por suspeita de overdose, além de outras duas terem sido internadas pelo mesmo motivo.

As mortes causaram consternação nas mídias sociais, com artistas e organizadores dos eventos postando declarações de solidariedade aos familiares. Nesta segunda, a notícia foi amplamente repercutida por diversos jornais, blogs, revistas e sites.

Diferente de outros tempos ou países, em que a generalização e a demonização estúpida da música seriam um alvo fácil da imprensa, desta vez o que se percebe é um debate muito mais construtivo a partir do horror causado pela situação. Talvez porque já tenha ficado evidente que problemas desse tipo não são exclusivos de festas de música eletrônica, e o Huffington Post, através de uma carta de seu Editor de Entretenimento Kia Makarechi, adotou um posicionamento valioso no caso. Deixando de lado a hipocrisia ou o sensacionalismo fácil, Kia sugere uma discussão ampla sobre o caso e, principalmente, atitudes por parte de artistas que vão além de apenas “lamentar as mortes no Twitter”. Ele também chama os grande eventos à responsabilidade de informar seu público sobre os riscos das drogas e de disponibilizar equipes médicas especialmente treinadas para agir, sugerindo ainda que organizações como a Dance Safe tenham um papel mais ativo nos eventos.

Image DanceSafe Logo

Mais que isso: o jornalista chama pra si mesmo a responsabilidade afirmando que se estereotipar os eventos de música eletrônica não é o melhor caminho para contribuir com a solução dos problemas, essa rotulação também não pode ser utilizada para negar o fato de que sim, há o consumo de drogas que está pondo em risco a vida de pessoas. A questão que surge com muita coerência no discurso de Kia é exatamente esta: a negação da existência do problema também é um fator para que ele persista, assim como é falta de políticas coerentes. Nas palavras dele mesmo “Anyone in a position to distribute information that can save lives who shirks that responsibility is a coward. There’s a difference between “don’t do drugs” and “there have been a number of high-profile deaths within our community — please take a minute to educate yourselves.”

Traduzindo: “Qualquer pessoa em uma posição de transmitir informações que podem salvar vidas que foge dessa responsabilidade é um covarde. Há uma diferença entre dizer “não use drogas” e “Há casos de mortes ligadas a isto dentro da nossa comunidade – por favor, tome um tempo para se informar e se educar sobre isso”.

O sensacionalismo que estereotipa e taxa todo e qualquer evento de música eletrônica de um “ambiente drogado” é batido (apesar de ainda vender muito), mas se ele é nocivo pra solução do problema, a hipocrisia que nega a existência de consumo também é. Ambos miram no ponto errado: um pela ânsia de ganhar audiência fácil na tragédia sem enfrentar o problema de fato, e outro por se esquivar de uma responsabilidade que de fato não é apenas sua, mas também é sua. O consumo de entorpecentes é um comportamento humano milenar e que vai acontecer, não importa quão pesada seja a proibição. Se ele foge do controle a ponto de seus usuários experimentarem conseqüências graves, e há um ponto comum no ambiente em que isto está acontecendo, nasce uma responsabilidade maior de todos os envolvidos. É o Estado, mas também são as pessoas envolvidas nisso que devem tomar atitudes positivas sem que isso seja distorcido pelos oportunistas como “apologia”.  Ou seja: a equação envolve o Estado, a sociedade e os mais diretamente envolvidos nos eventos.

A Polícia não está fazendo apologia à violência quando pede que torcedores evitem trajar camisas de torcidas organizadas em dias de jogo: ela está adotando uma postura preventiva a fim de evitar que o comportamento de poucos violentos prejudique muitos por motivos estúpidos. Igualmente, orientar condutas a todos os frequentadores de uma festa sobre como agir em uma situação de perigo ligada ao consumo de drogas não é apologia alguma, mas tão somente  uma prevenção de que o comportamento de poucos se converta em um grande problema.

Talvez Makarechi esteja exagerando, mas eu particularmente me preocupo quando algo que gostamos tanto como a música eletrônica cresce numa proporção tão grande a ponto de pessoas perderem suas vidas em momentos que eram para ser de diversão, e estas mortes podem estar acontecendo por simples desconhecimento.

E é exatamente por isso quero fazer a minha parte, a começar aqui pelo musicness: o ótimo filme “Quebrando o tabu” inaugura amanhã em seu canal no Youtube uma série de vídeos destinados a ampliar o debate sobre a questão das drogas. Se você ainda não viu o filme ele está disponível integralmente no canal do Quebrando o Tabu! Mais que isso: recomendo que você acesse a página do Dance Safe e dê uma lida. Ela é intuitiva e simples, e o Google Tradutor ajuda quem não tem facilidade com o inglês. As informações podem ser úteis caso você seja um consumidor, caso você tenha amigos que sejam ou simplesmente se você estiver num clube/show/festa e ver uma pessoa em situação de risco.

Muitos pensam que a sociedade brasileira não está pronta para o debate maduro que sempre sonhamos sobre a questão das políticas de redução de danos relacionada ao consumo de drogas. Mas acredito que tomarmos a iniciativa de fazer este debate amadurecer não é apenas uma opção, mas sim uma responsabilidade, e quebrar alguns tabus é o primeiro passo pra que isso aconteça.

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