Você compra carros com base em rankings? Seja dos mais vendidos, seja dos melhores? Deixa de frequentar restaurantes porque eles estão fora dos guias especializados ou não estão nas listas dos melhores? Larga o seu time e começa a torcer pra outro pela colocação deles no ranking da CBF ou da Placar?  Provavelmente a resposta pra todas estas perguntas é não – o que não desqualifica a existência destas classificações, diga-se.

Criar listas de coisas e classificá-las segundo critérios mais ou menos lógicos é quase que um hábito do ser humano. Tem a ver com estabelecer parâmetros e agrupar coisas por suas qualidades e provavelmente essa é uma conduta instintiva que nos fez evoluir. Em geral isso pode ser também um ótimo passatempo, e pra algumas pessoas pode se converter numa obsessão. No ótimo livro “Alta Fidelidade” o inglês Nick Hornby explora bem essa mania: das separações mais dolorosas à músicas e álbuns o personagem principal Rob Fleming vive toda uma vida em torno de suas próprias listas, o que somado à ótima narrativa de Hornby faz da história um clássico da literatura recente.

A história de “Alta Fidelidade” me vem à cabeça todos os anos quando vejo as premiações de DJs e os intermináveis embates que se sucedem às suas divulgações: os erros, acertos, as incoerências, absurdos, esquecimentos, méritos, tudo acaba em discussão. Era assim lá atrás nos tempos dos fóruns e com o passar do tempo estes deram lugar às redes sociais, com a polêmica só mudando de endereço: Orkut, Facebook e Twitter frequentemente são palco de debates acalorados  – aos quais eu mesmo participei diversas vezes – que seguem rigorosamente iguais nos argumentos com pequenas variantes nos nomes dos envolvidos. Como estamos em setembro, a DJ Mag encerrou recentemente sua votação do “Top DJ” de 2013, e logo deve divulgar mais uma lista, a décima sétima da história, o que fará com que se repita o filme.

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Ou não. Nos anos 90, quando a música eletrônica era um pequeno nicho e a figura do DJ estava mais perto da marginalidade do que do glamour, fazia sentido que uma publicação de referência inglesa prestasse o suposto bom serviço de situar uma cena artística e um mercado então limitados, mostrando quais DJs eram os mais queridos e apreciados pelo público. Afinal de contas, haviam poucos DJs, poucos clubes, poucos festivais e muito pouca gente (principalmente fora da Inglaterra) que se importasse muito com isso. À época já havia quem torcesse o nariz pra iniciativa justificando que artistas não são carros, vinhos ou produtos pra que possam ser classificados assim.

Como já disse antes, o tempo passou e não é preciso lembrar aqui o tamanho que a então pequena “cena” adquiriu, mas ela cresceu tanto que há 20 anos atrás deviam existir pouco mais de uma centena de DJs profissionais no mundo e hoje existem milhares deles. Num cenário que lutava muito pra ser visto com seriedade e contra preconceitos, explicar pro grande público que haviam artistas  profissionais reconhecidos pelo seu trabalho tinha a sua utilidade

Hoje, entretanto, a permanência das listas dos melhores DJs se converteu em uma aberração, mais propensa a escancarar as distorções de um mercado do que servir como guia de qualquer coisa. Soa como um resquício de uma época em que éramos pequenos, e o fato de não haver nada parecido na música pop, no rock, no hip-hop ou em qualquer gênero é indicador suficiente disso. Os Top 100 da DJ Mag ou os Top 50 do Resident Advisor polarizam e dividem um cenário rico demais pra ser taxado de ou comercial ou conceitual, principalmente quando há tanto talento que não se enquadra em nenhum dos extremos ou que se encaixa perfeitamente nos dois. Pra quem acha que ao menos eles refletem muito bem quais são os artistas mais populares nestes dois “macro gêneros”, a questão que surge é: o que exatamente é a popularidade hoje?

Um artigo recente do New York Times sugere que o conceito de “pop” atual difere muito do de ontem. Méritos da Internet, que fornece novos e muitas vezes confusos parâmetros pra se medir a influência de um artista. Há 70 anos atrás a Billboard simplesmente coletava os dados dos discos mais vendidos e pronto. Hoje o cálculo da publicação leva em conta  downloads, dados de streaming e até mesmo visualizações no YouTube, o que leva à lógica conclusão de que o mais popular não é necessariamente o que mais vende, já que vender não é mais sinônimo de tocar. Hoje temos um pop mais efêmero do que nunca: Gangnam Style e Harlem Shake são ótimos exemplos de hits massivos que tão rápido como vieram, foram.

Logo, na música eletrônica, o DJ mais popular é o mais votado em um site ou o que tem as suas faixas e sets mais baixados – legal ou ilegalmente? Ou o que tem mais datas por ano, por exemplo? Em um país como o Brasil, com tantos artistas valorosos mas restritos territorialmente, os “Tops” estrangeiros estão muito distantes da nossa realidade e refletem quase nada do que acontece nas noites brasileiras.

O fato é que em toda a “indústria cultural” as novas plataformas de reprodução (livros, filmes, vídeos, etc) estão levando a enormes mudanças nos parâmetros de qualificação de popularidade. E outra verdade é que vivemos um tempo em que a chamada “cultura de massa” parece cada vez mais fragmentada, com nichos e preferências de antigas minorias com espaços cada vez maiores, deixando mais difícil identificar as homogeneidades culturais que proporcionam os fenômenos pops. Ou seja: votações restritas a DOIS sites especializados estão muito distantes do que pode ser considerada uma ferramenta válida pra se mensurar a popularidade de artistas. É curioso (e não deixa de ser irônico) ver como uma música que sempre esteve tão ligada à ideia futurística ainda esteja tão presa ao passado na sua própria auto crítica.

Talvez o caminho a ser trilhado esteja nas bons e velhos prêmios. É nas premiações qualitativas que os bons parâmetros podem aparecer com mais facilidade, e é mais comum e menos polêmico que se estipulem classificações de grandes álbuns, de eventos memoráveis e de artistas que atravessam momentos singulares. É saudável que todos estes trabalhos sejam reconhecidos – de preferência mesclando a opinião do público com a de especialistas, pra que se tenha uma avaliação combinando a popularidade com a opinião de gente que trabalha com isso, e só por isso tem mais condições de opinar já que vê, escuta e observa mais que a maioria. Talvez com tanta proximidade com a tecnologia, estabelecer métricas eficazes de popularidade amparadas em dados reais não seja um desafio tão grande assim.

Listas e classificações podem ser ótimas fontes de informação para um público que desconhece determinado assunto e uma justa homenagem a trabalhos, mas a sua credibilidade deve residir em algo além da simples popularidade – principalmente com tantas perguntas em torno do que esta palavra pode significar hoje.

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