Arquivos para o mês de: janeiro, 2014

Um ditado holandês diz que “Deus criou o mundo, e os holandeses, a Holanda”. O conteúdo aparentemente simplista e até um pouco arrogante da frase resume centenas de anos de uma obstinação implacável de um povo na sua missão de ocupar um território muito hostil ao homem. Contrariando toda a lógica e até mesmo algumas leis da física, os habitantes dos “Países Baixos” não apenas conseguiram controlar as correntes marinhas que constantemente alagavam boa parte de seu território com um engenhoso e eficiente sistema de drenagem, como também construíram uma das nações mais ricas do planeta – e por riqueza, aqui, não se entenda apenas Euros.

Liberdade, ou mais precisamente, tolerância, são provavelmente os maiores e mais tradicionais patrimônios holandeses (talvez ao lado da habilidade pros negócios): antes mesmo do país nascer, as Casas de Orange e Nassau já se notabilizavam pela tolerância religiosa em um tempo em que o catolicismo punia com a fogueira aqueles que não seguiam os seus preceitos. A permissão do exercício de religiões protestantes e a incomum aceitação às diferenças quase custaram o próprio nascimento do país, e acabaram moldando fortemente a cultura local. Pode soar um exagero, mas se hoje a Holanda é notória por suas políticas liberais em relação a assuntos (atualmente) polêmicos como as drogas e prostituição, é porque através do tempo se sedimentou lentamente todo um entendimento dos benefícios da tolerância, e que teve início há  muitos séculos (para saber mais sobre o assunto, esta é uma ótima leitura).

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Não é difícil imaginar que a música eletrônica encontrou na Holanda um cenário dos mais favoráveis, e desde que a cultura das pistas começou a se espalhar pelo mundo os holandeses a abraçaram como poucos: artistas destacados, público grande e fiel e marcas mundiais foram solidamente construídos no país nos últimos 25 anos. O ponto central de todo este movimento: a capital Amsterdam. E hoje, quando a música eletrônica passa por sua fase de maior expansão, os holandeses parecem mais dispostos que nunca a apostar alto no estilo.

A maior prova disso atende pelo nome de A’DAM. A abreviação de “Amsterdam Dance and Music” é também um curioso trocadilho com o nome da cidade e a figura bíblica de Adão (Adam em inglês e holandês) e dá nome a um complexo que está sendo construído ao norte da capital do país, às margens do lago IJ. O projeto consiste na reforma da torre de Overhoeks,  erguida em 1969 e uma das mais altas construções de Amsterdam. O edifício foi utilizado pela petrolífera Shell por décadas, a ponto dos habitantes da cidade ainda o chamarem de “Shell Tower”, e com a sua desocupação em 2009 e transferência da posse à Prefeitura de Amsterdam, esta optou por abrir uma concorrência em 2012 para decidir seu novo destino (durante a ADE 2013, o lobby do prédio recebeu uma festa do clube D-Edge, o que pareceu uma boa prévia do seu futuro).

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Entre mais de 30 projetos e propostas enviados para mudar o local o vencedor foi uma espécie de complexo dos sonhos pra amantes de música eletrônica: distribuídos nos mais de 20 pavimentos do edifício estão sendo feitos um clube, um bar 24 horas, um hotel boutique, estúdios de produção musical, um restaurante, espaços de trabalho e co-working destinados à profissionais da economia criativa, uma academia e até mesmo uma piscina. Os nomes dos espaços dão continuidade ao trocadilho bíblico: o bar da cobertura se chama “Heaven”, o clube do sub-solo “Hell”, com saída para os jardins de Tolhuistuin, que farão o papel de “Eden”, além de uma área para shows já existente chamada de “Paradiso”.

Por trás do projeto:  a gigante ID&T,  uma incorporadora holandesa chamada Lingotto, o clube local AIR e a Massive Music. Duncan Stutterheim, um dos fundadores da ID&T, disse que a empresa “veio de ‘Amsterdam Noord’, por isso é muito importante dar algo de volta para a cidade. Para a comunidade empresarial, a comunidade do entretenimento, a comunidade dos músicos e para toda a comunidade criativa”. A ideia principal por trás do complexo é criar um “hub criativo” em torno da música eletrônica e ao mesmo tempo impulsionar a revitalização do norte da capital do país: vizinho à torre já está o EYE Film, mistura de museu e instituto de cinema nacional.

Tantos trocadilhos e ditados envolvendo religião poderiam causar polêmica ainda hoje em alguns lugares. Na Holanda, entretanto, a tolerância parece ter trazido consigo não apenas bom humor pra tirar isso de letra, como principalmente, uma criatividade impressionante – há muitos séculos.

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As obras da A’DAM começam em junho deste ano e devem ser entregues em 2015 – clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.

Saiba mais sobre o projeto no site oficial: http://adamtoren.nl ou na página do Facebook https://www.facebook.com/adamtoren2015.

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Música e futebol caminham juntos há bastante tempo. O fascínio e a paixão que ambos são capazes de exercer nas massas parece ser o elemento comum mais evidente, e ao longo do tempo esta proximidade rendeu imagens históricas como a de Bob Marley calçando chuteiras , times como o Polytheama, do qual Chico Buarque é o dono e principal jogador, e adaptações do clássico “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division, cantadas a plenos pulmões por torcedores do Manchester United num lotado Old Trafford:

Solomun, DJ, produtor, dono do selo e um dos nomes mais destacados da música eletrônica hoje, está dando seqüência a esta tradicional relação de um jeito curioso: seu selo DYINAMIC é o atual patrocinador da equipe juvenil do Hamburg-Eimsbütteler Ballspiel-Club, time de futebol em que ele mesmo jogou quando era criança.

Na foto abaixo, os atletas alemães vestindo o uniforme com o logotipo do selo estampado na camisa (e o próprio Solomun “apadrinhando” a equipe):

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Pete Tong é uma das figuras mais emblemáticas da música eletrônica: o DJ e produtor britânico deve boa parte de sua fama à apresentação do Essential Mix, programa de rádio que vai ao ar todos os sábados à noite ininterruptamente há mais de 20 anos na Radio 1 da BBC, estatal de comunicação inglesa. Pete já batizou até um filme , “Its All Gone Pete Tong”, sátira à indústria da música eletrônica lançada em 2004 e que no Brasil recebeu o sofrível nome de “Ritmo Acelerado”. Se você ainda não viu, procure e assista: Carl Cox e o próprio Pete Tong interpretando a si mesmos e diversos estereótipos de personagens comuns na indústria da música rendem boas risadas.

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Na passagem de 2013 para 2014, Pete ganhou uma surpresa: foi condecorado como membro da “Ordem do Império Britânico”, tradição instituída pelo Rei Jorge V em 1917 e destinada à civis e militares pelos seus serviços prestados ao Reino Unido. Outros DJs como Norman Jay e David Rodigan já foram outorgados com a honra real. Tong se disse honrado e feliz pela alegria que sua mãe sentirá com a notícia.

É possível assistir “Its All Gone Pete Tong” no link abaixo: